11 de dezembro de 2020

Agricultura camponesa

 A expansão das cadeias produtivas agroindustriais e o controle do mercado mundial de alimentos por grandes grupos empresariais provocaram uma expressiva transformação: a padronização do cardápio alimentar. É comum encontrar nas prateleiras dos supermercados ou das redes de fast-food os mesmos tipos e marcas de alimentos em diferentes países. Apenas quatro grãos - arroz, milho, trigo e soja - concentram quase a totalidade dos alimentos consumidos pela população mundial.

A padronização alimentar modifica a forma de preparar a comida, empobrece o perfil alimentar da população e compromete os diferentes modos de viver e a preservação da cultura local.

Para que haja soberania alimentar, é preciso valorizar os produtores agrícolas locais, especialmente as famílias e as comunidades rurais de diferentes regiões da Terra que preservaram nas lavouras de subsistência imensa diversidade de culturas alimentares, peculiares em cada região.

São esses trabalhadores rurais, os camponeses, que aprenderam a manter a fertilidade do solo nos sistemas agrícolas de florestas e savanas tropicais, nos cultivos irrigados das regiões desérticas e semidesérticas, na rizicultura dos campos irrigados das regiões tropicais úmidas, nos cultivos associados à criação de animais das regiões temperadas, nas atividades de pastoreio das regiões herbáceas frias ou semidesérticas. Da mesma forma, são os camponeses que estabeleceram laços de vizinhança em mutirões de trabalho ou o consumo de bens e serviços em localidades próximas para a manutenção de ferramentas e suprimentos de produtos não produzidos por eles, favorecendo o mercado local.

Por essas razões, a agropecuária camponesa é considerada uma alternativa ao empobrecimento da dieta alimentar e ao controle absoluto do setor agrícola pelas cadeias agroindustriais, que utilizam cada vez mais as sementes transgênicas. Ao manejarem sistemas agrícolas muito antigos, os camponeses produziram as próprias sementes, chamadas de sementes crioulas, preservando a diversidade genética das plantas agrícolas e de raças e mudas adaptadas a condições ambientais das comunidades locais.

Imagem: Reprodução

Fonte: TERRA, Lygia; ARAUJO, Regina; GUIMARÃES, Raul Borges. Conexões: estudos de geografia geral e do Brasil. São Paulo: Moderna, 2016.

Slow Food

 Para impedir que o patrimônio cultural gastronômico de várias regiões do mundo seja destruído pela ação dos alimentos industrializados, enlatados, congelados e sem personalidade, em 1986 surgiu na Itália o movimento Slow Food (em inglês "comida lenta"). O movimento e a organização não governamental fundados por Carlo Petrini tem como objetivo promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente. O movimento é mais uma reação à massificação e globalização da culinária representada pelas cadeias industriais de fast-food.

 O Slow Food valoriza o processo cultural que determinou a receita de cada alimento, de cada prato, dissemina o respeito pela qualidade dos ingredientes e desenvolve nos consumidores a percepção de que cada ambiente natural deixa sua marca nos produtos alimentícios. O símbolo do movimento Slow Food é o caracol, um bichinho lento, porém determinado.

Imagem: Reprodução
Fonte:
MOREIRA, João Carlos; SENE, Eustáquio de. Geografia geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. São Paulo: Scipione, 2017.
SLOW Food. Wikipédia a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Slow_food

10 de dezembro de 2020

A questão dos alimentos e da fome

Nas últimas décadas, houve uma mudança no padrão de consumo alimentar do brasileiro, que passou a consumir mais produtos industrializados. Isso permitiu às indústrias expandir sua produção de alimentos processados, como queijos e sucos.

França explica a mudança no padrão alimentar do brasileiro 

Os hábitos do brasileiro têm sido redefinidos a partir do surgimento da indústria alimentar e marcados pelo consumo excessivo de produtos processados, em detrimento de produtos regionais com tradição cultural, principalmente nos grandes centros urbanos, onde o fast food predomina, tendo como contrapartida, o movimento slow food, que conjuga prazer e regionalidade no hábito alimentar.

Uma das preocupações quanto à ingestão de muitos desses novos produtos é o baixo valor nutricional. eles contêm alto teor de gorduras saturadas e açúcar, causando obesidade, além de outros problemas para a saúde.

O surgimento e/ou agravamento de patologias como desnutrição, dislipidemias, obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis estão intimamente ligadas a tais mudanças na alimentação do indivíduo. Cabe ao profissional nutricionista desenvolver estratégias de educação nutricional, visando desenvolver hábitos alimentares saudáveis e promover melhora na saúde e qualidade de vida da população.

O problema da fome


Fome é a situação de carência, por um período prolongado, de alimentos capazes de fornecer a energia e dos elementos nutritivos necessários para a vida e a saúde do organismo. Segundo a FAO (sigla em inglês da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o mínimo diário para a manutenção de uma pessoa saudável normalmente varia de 2200 a 3000 calorias.

A fome é uma das maiores mazelas da humanidade. É inaceitável que em pleno século XXI esse flagelo atinja milhões de pessoas. De acordo com relatório da FAO, O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018 (SOFI), em nível mundial quase 821 milhões de pessoas - cerca de uma em cada nove - foram vítimas da fome em 2017, um aumento de 17 milhões em relação ao ano anterior. O mesmo relatório aponta que no Brasil  2,5% da população passou fome em 2017, o que corresponde a 5,2 milhões de pessoas.

O desenvolvimento científico e tecnológico ocorrido nas últimas décadas não foi suficiente para  erradicar da humanidade o sofrimento da fome. Apesar do aumento  da produção agrícola ocorrido em várias partes do planeta, a fome persiste. Atualmente, o mundo produz uma quantidade muito maior de alimentos do que seria necessário para a alimentação saudável de toda a população planetária. No entanto, há uma grande concentração dessa produção, e as populações mais pobres continuam sem acesso a alimentos.

Conforme  Silva (2016) a fome tem motivos:
Existem alguns motivos conhecidos que levam ao estado de fome crônica, tais como: fatores naturais, guerras civis, inabilidade governamental, técnicas rudimentares de produção. Já nos anos 1940, o geógrafo brasileiro Josué de Castro apontava o dilema da fome em seu clássico livro Geografia da fome. Segundo ele: "A fome é uma realidade  demasiado gritante e extensa para ser tapada com uma peneira aos olhos do mundo" ( CASTRO, 1946, p.15).

Imagem: Reprodução

Fonte:
SILVA, Edilson Adão Cândido da; JÚNIOR, Laercio Furquim. Geografia em rede. São Paulo: FTD, 2016.
VIEIRA, Bianca Carvalho et al. Ser protagonista: geografia. São Paulo: Edições SM, 2016.
FOME aumenta no mundo e na América Latina e no Caribe pelo terceiro ano consecutivo. Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Disponível em: http://www.fao.org/americas/noticias/ver/pt/c/1152189/
FOME no Brasil. Observatório do Terceiro Setor. Disponível em: https://observatorio3setor.org.br/media-center/radio-usp/fome-no-brasil/
FRANÇA, F.C.O et al. Mudança dos hábitos alimentares provocados pela industrialização e o impacto sobre a saúde do brasileiro. Anais do I Seminário Alimentação e Cultura na Bahia. Disponível em: http://www2.uefs.br:8081/cer/wp-content/uploads/FRANCA_Fabiana.pdf

Segurança alimentar

"A segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis". (II Conferência Nacional de SAN, 2004; LOSAN, 2006).

Segurança alimentar refere-se ao direito de todos ao acesso a alimentos de qualidade que sejam produzidos de forma sustentável, econômica e socialmente. A fome, a má alimentação, a subnutrição e os preços abusivos são alguns dos fatores que indicam a falta de segurança alimentar.

O aumento do consumo de produtos industrializados, assim como de congelados, com baixo valor nutritivo e grande quantidade de açúcar, gorduras e alto teor calórico, tem sido um dos principais responsáveis pelo crescimento do número de pessoas obesas no mundo, sobretudo entre crianças e adolescentes. Esses novos padrões de consumo contribuem para a "insegurança alimentar", na medida em que se constata um significativo aumento de várias doenças associadas à ingestão desequilibrada de nutrientes, como doenças cardíacas, hipertensão e diabetes.

A Organização Mundial da Saúde tem proposto restrições às propagandas desses tipos de alimento dirigida às crianças, por considerar que estas são mais suscetíveis aos apelos comerciais.
Imagem: Reprodução

Fonte: 
VIEIRA, Bianca Carvalho et al. Ser protagonista: geografia. São Paulo: Edições SM, 2016.
SOBERANIA alimentar e segurança alimentar e nutricional. Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (CERESAN). Disponível em: http://www.ceresan.net.br/quem-somos/o-que-entendemos-por-ssan/
"A atitude do educador diante do mundo deve ser sempre investigativa, questionadora e reflexiva, pois os conhecimentos com os quais ele lida em seu exercício profissional estão em permanente mutação."
Lana de Souza Cavalcanti - Geógrafa